Notas

Alfredo Lacerda sai da Time Out após 12 anos como crítico gastronómico

Alfredo Lacerda despede-se da Time Out após 12 anos e mais de 650 críticas. O crítico gastronómico revela bastidores, ameaças recebidas e justifica o pseudónimo, entre outros assuntos, numa carta de duas páginas

Na mais recente edição impressa da Time Out, a de Primavera, Alfredo Lacerda, o cáustico crítico gastronómico da revista, despede-se dos leitores numa carta de duas páginas, o mesmo espaço dedicado à sua última crítica – ao Belcanto, o restaurante com que iniciou este percurso há 12 anos, como faz questão de assinalar logo no arranque do texto.

Aliás, nesta sua última crítica ao Belcanto, Lacerda já transparecia alguma nostalgia sem que isso lhe tolhesse o espírito crítico e até mesmo alguma desilusão, deixando a sua marca habitual, aqui e ali, no seu tom mordaz com laivos de preconceito social – ainda que não deixe de enaltecer, também, uma série de predicados sobre o restaurante e atribuindo-lhe no final 4 estrelas (em 5).

A carta de despedida revela os bastidores de 12 anos de crítica gastronómica e mais de 650 artigos. Lacerda faz um balanço onde a sinceridade se mistura com a habitual ironia, reconhecendo erros e defendendo métodos nem sempre bem aceites.

O crítico começa por falar sobre as maleitas que a profissão lhe trouxe, mais em jeito de medalha do que de lamento. Fala em “análises mais negras: pré-diabetes, colesterol alto, tensão idem”, mas também numa “sensação de extraordinário privilégio”. Também faz um mea culpa admitindo ter cometido “erros, muitos”, explicando que “os restaurantes e a comida mudam de dia para dia”, por vezes “do almoço para o jantar”.

Um dos momentos mais reveladores do texto surge quando descreve as reacções às suas críticas, com ameaças “veladas, como mensagens anónimas a sugerir que olhasse para trás na rua”, e outras “ostensivas, como a de um empresário do sector” que disse que “o crítico da Time Out um dia ia aparecer na bagageira de um carro”. Só faltou revelar o nome do dito empresário mas não deve ser muito difícil adivinhar quem é. A pressão judicial, essa só chegou uma vez a tribunal, num processo despachado “de forma exemplar” a seu favor pela justiça.

Lacerda sublinha ainda que “nunca nenhuma conta foi paga pelos restaurantes”, mantendo sempre “uma distância defensiva”. Esta postura, defende, contrasta com a de “influencers e pseudo jornalistas” que iludem clientes com “conteúdos comprados”. A sua principal preocupação: “Nunca tivemos tanta informação sobre restaurantes, mas nunca essa informação foi tão frágil, tão mascarada”.

O pseudónimo

Quando, já no final, quase nos dava a entender que ia finalmente “sair do armário” e revelar a sua identidade – que na verdade não é propriamente o segredo mais bem guardado da cidade –, Lacerda esclarece que o nome é um pseudónimo usado “pela marca Time Out em todo o mundo”, mas que nunca se escondeu nisso, nunca escrevendo algo que não pudesse assumir com o seu próprio nome.

A despedida termina com conselhos ao seu estilo: “Não comam de ardósias. Evitem croquetes de alheira. Desconfiem de restaurantes ‘by chef não sei quê’.” Como reconhece, “restamos poucos neste ofício”.

Falta agora saber se o autor se despede apenas da Time Out e do pseudónimo – que era a personagem de um conto que escreveu em tempos para uma revista literária, mas que aparentemente quase ninguém deu por isso – ou se vai dar continuidade a este tipo de texto jornalístico noutros meios, onde tem vindo a ganhar grande proeminência.

Uma nota final, tipo  last but not the least, para referir que não é a única saída de relevo da Time Out. Também a editora de gastronomia, Cláudia Lima Carvalho, uma das melhores jornalistas da área, está de saída, o que indicia uma certa mudança de trajecto da revista, pelo menos nesta temática. Valha-nos que, segundo tudo indica, a Cláudia não se rendeu às agências de comunicação, destino de tantos outros colegas nestes tempos difíceis para a imprensa, e vai continuar por aí, no jornalismo gastronómico, a comer e contar histórias.


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