Covid-19

“É a machadada final”. Recolher obrigatório deixa restaurantes em alvoroço (e leva ao fecho temporário do Feitoria)

Se está a ler esta reportagem à hora que foi publicada, é quase certo que estará a fazê-lo de casa dado já ter entrado em vigor o recolher obrigatório decretado pelo Governo, com início nesta segunda-feira e que será aplicado entre as 23h e as 5h durante a semana e das 13h às 5h, ao fim de semana.

A medida pretende desincentivar as reuniões familiares mais alargadas, ao fim de semana, mas atinge, propositadamente, também, a restauração, um dos sectores mais massacrados desde que foi declarada a pandemia provocada pelo vírus do Covid-19, em finais de Março.

Esta decisão, a dualidade de critérios, o facto de até ao momento não estar previstas nenhum tipo específico de compensações* está a levar à indignação muitos profissionais do sector. O Mesa Marcada foi saber junto de alguns destes profissionais o significado destas medidas em termos financeiros e o que estará na base da indignação.

O peso de não poderem abrir no dia e horário mais forte em termos de afluência, o Sábado à noite e em muitos casos também o domingo, acrescido do facto de já terem de encerrar às 22.30h, durante a semana, é referido várias vezes como uma “machadada” no sector. José Avillez estima que estas restrições representem quebras de “40% a 80%”, dependendo do tipo de restaurante. Já André Magalhães calcula uma quebra entre 20 a 25% na Taberna da Rua das Flores e 50% no Quiosque da Praça de São Paulo. Ainda em Lisboa, André Lança Cordeiro, do Essencial, diz que, no global as restrições de horários (onde inclui o fecho às 22.30h) lhe retiram cerca de metade da facturação e André Fernandes, do Attla, ainda que não avance com números, responde de forma bem elucidativa: “é uma quebra grande, visto que os nossos maiores dias de facturação têm sido a Sexta e Sábado. São os únicos dias que nos salvam destas semanas horríveis de Outubro”.

Ljubomir Stanisic, não tem dúvidas, “é a machadada final”. Diz o chefe do 100 Maneiras: “ o fim-de-semana é o que tem permitido a muitos restaurantes sobreviver a estes tempos de dificuldade. Forçarem-nos a fechar ao fim-de-semana (porque dizer que podemos estar abertos até às 13h ou que podemos fazer delivery, é piada) é condenarem-nos”.

A decisão mais drástica, devido à restrição de horários, vem de Belém. A administração do grupo Altis vai encerrar o Feitoria até ao final de Novembro. O chefe João Rodrigues justifica a medida da seguinte forma: “estávamos muito regulares durante toda a semana, mas Sexta e Sábado eram dias muito importantes para nós. Perdendo o Sábado, a quebra é grande e, para além disso, o facto das pessoas terem de recolher antes das 23h, obrigaria a que saíssem, eventualmente, até às 22h”. Isto levaria a que tivessem “de aceitar reservas muito mais cedo e para gerir “sittings” iríamos sempre perder mais clientes, mesmo que abríssemos mais cedo. Portanto estas medidas, no fundo, vieram dar uma machadada final no que faltava”. Segundo, o chefe do restaurante que tem vencido os prémios do Mesa Marcada nos últimos anos e que conta com uma estrela Michelin, iriam “chegar a um ponto em que os custos ultrapassam largamente as receitas”. Portanto, “a decisão”, conclui, “foi de fechar até ao final do mês e ver como esta situação vai evoluir”.

No Porto, Rui Paula, que foi das vozes que mais se fez ouvir logo no início da pandemia, não encontra grande sentido nas medidas. “Isto já está mau e essa medida é a machadada final para restauração. Nos momentos que correm ainda era no fim de semana que se facturava alguma coisa. As quebras neste momento estão nos 75 por cento….”. Vasco Coelho Santos também fala numa “quebra enorme” nas receitas, dado que o sábado era a garantia, dentro das muitas restrições que já tinham. Porém, o pior cenário prevê-o para o Semea, o seu restaurante mais informal, que fica no centro da cidade. “É uma rua muito turística e pedonal que está a sofrer imenso e, ao fim de semana, era quando conseguíamos ter mais clientes, mas ainda sem encher o restaurante”.

Ainda no Porto, o chefe Rui Martins, do Paparico, tem sido um dos que mais tem exteriorizado a indignação do sector. Martins também não avança com perdas em números, mas refere que as “limitações obrigam a uma ginástica financeira brutal” e que “com as constantes quebras que o nosso sector tem sofrido, esta ginástica escasseia”. Além deste aspecto, Martins refere ainda que as restrições mexem psicologicamente com as equipas. Segundo ele, o factor “casa cheia” ao fim de semana (respeitando o distanciamento social) dava “outro tipo de motivação. É como pensares: isto vai ficar bem.”

Ao contrário do período de confinamento de Março, o governo não falou de compensações financeiras específicas para o sector* e a par da acumulação de restrições, a dualidade de critérios e contradições, são as principais razões que estão a indignar os empresários e profissionais do sector.

“Numa altura que estamos a acumular perdas desde Março, que o endividamento aumentou, que poucos restaurantes conseguiram chegar ao break even operacional, os apoios comunicados são claramente insuficientes”, refere José Avillez. A situação para a maior parte das pessoas é muito pior do que em Março e na minha opinião nada que não se estivesse a prever. Quando se recorre a empréstimos para pagar dívidas operacionais sem saber quando a normalidade retoma e por isso sem conseguir fazer um plano de negócios, os riscos são imensos. Ou há uma ajuda concreta do Governo ou mais de 50% do sector entra em insolvência”.

André Magalhães menciona igualmente que o apoio do estado é um dever moral: “num sistema governativo justo e equitativo, as medidas restritivas e penalizadoras para uma qualquer actividade devem estar associadas a um pressuposto de disposições compensatórias e de incentivo à reposição da normalidade”.

Por sua vez, Lança Cordeiro refere que além da falta de uma compensação por parte do estado,  a indignação se deve muito à constante escaladas das medidas: “além de todas as semanas anunciarem novas restrições e termos de estar a tentar adaptarmo-nos da melhor forma a todas elas, há o acréscimo de neste momento já́ não termos acesso ao lay off ”, sendo que “os custos fixos se mantêm todos inalterados”.

André Fernandes, do Attla, não tem mesmo pejo em dizer que “parece que é tudo uma estratégia do Estado para evitar subsídios”. E Ljubomir Stanisic fala da desorientação e no degaste provocado pelo acumular de situações: “acho que é tudo. É o acumular de restrições que por vezes não fazem sentido nenhum (5 pessoas nas celebrações e 6 à mesa, por exemplo. Alguém percebeu isso?), é a falta de coerência que existe quando nos obrigam a fechar, mas continuam a exigir que paguemos impostos e contribuições à segurança social a tempo e horas, é a falta de compensações a um sector que emprega (ou empregava, cada vez mais) uma fatia enorme da população”. Mais contido do que é hábito, Ljubomir tem consciência da situação e sugere que se fiscalize mais e que se penalize quem não acata: “todos queremos a saúde pública, como é óbvio, mas a restauração tem sido exemplar, na sua grande maioria, no cumprimento de regras. Aumentem a fiscalização. Punam quem não cumpre. Mas obrigar-nos a fechar assim, sem qualquer tipo de apoio, é condenar-nos à morte”.

Por sua vez, João Rodrigues, além das questões financeiras menciona a dificuldade na gestão moral das equipas: “É um pouco de tudo. E incerteza. É não sabermos muito bem o que fazer em relação a gerir equipas, custos. Não se trata do restaurante ser bom, da gestão ser boa ou ser má. É uma questão de não haver clientes e cada vez mais estarmos privados de clientes e de não conseguirmos trabalhar. Acho que a grande indignação das pessoas do sector é estarem a ver-se privadas daquilo que fazem, daquilo que gostam, do poder trabalhar todos os dias. Vamos ter de ir outra vez para casa e de alguma forma isso cria uma desilusão grande para todos porque obviamente isso depois tem implicações a nível financeiro”.

Também Vasco Coelho Santos menciona a falta de apoios neste momento e na escalada de restrições, como factor de indignação. “Mantemos os custos todos, mantemos as equipas e não temos clientes. Temos contas para pagar, mas não temos clientes e os restaurantes estão vazios e não há qualquer medida de apoio. Para além disso, as restrições acumulam-se umas atrás das outras e é tudo muito incerto. Num dia, anunciam uma medida e no dia seguinte há mais duas novas. Não dá tempo nem espaço para planear, para pensar em soluções ou para gerir nada. A continuar assim vai ser muito difícil encarar esta pandemia e vai ser difícil a muitos sobreviverem”.

Já Rui Martins refere que o que está a indignar o sector é a dualidade de critérios: “tu não podes estar aberto, mas podes ir a um supermercado, que por acaso está dentro de um Shopping, que até vende frango de churrasco e afins, e que por acaso até colocaram umas mesas para estares confortável e pura e simplesmente estão abertos. Sem limitações, sem restrições de pessoas. Penso é que alguém tinha de ser o bode expiatório, pronto escolheram a restauração”. Como se não bastasse, Rui Martins fala ainda no acréscimo das “notícias constantes e contraditórias, que só́ fazem as pessoas não quererem ir para os restaurantes.”

Rui Paula também refere que a saúde do sector já estava muito debilitada, após os dois meses e meio fechados e que houve ajudas, “mas não as suficientes”. O conhecido chefe, que alcançou no ano passado a segunda estrela Michelin no Casa de Chá da Boa Nova, em Leça, deixa o aviso em relação às actuais medidas: “ou arranjam maneira de ajudar estas empresas e não é com mais empréstimos, ou vai tudo ao ar. Acaba tudo!”.

As medidas restritivas do recolher obrigatório decretado pelo governo afectam 7,1 milhões de pessoas, de 121 municípios e incluem todos os concelhos das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, o que correspondente a 70% da população de Portugal.

*Nota: já depois de recolhidos estes depoimentos e pouco tempo antes de ser publicado este artigo, em entrevista à TVI, segundo o Expresso, o Primeiro Ministro António Costa afirmou que o Governo vai lançar um apoio específico para restaurantes de forma a minimizar as perdas dos próximos fins de semana, devido às restrições impostas pelo Governo. De acordo com António Costa, refere ainda o Expresso, “o e-fatura permite saber qual a receita de cada restaurante e vai ser feita uma média (do ano, do mês ou de fins de semana) para poder ser desenhado o apoio”.  Os critérios ainda não são conhecidos, mas o Primeiro Ministro referiu que os ministérios da Economia e Finanças estão a trabalhar na medida.

Foto retirada do Instagram de Rui Martins

Nasceu em 1969 em Rio Maior e vive em Lisboa há mais de 30 anos. Ex-publicitário, é actualmente jornalista de gastronomia. Além do Mesa Marcada e de “activista” no Instagram, colabora com o jornal Público, Revista de Vinhos e escreve em publicações como a Eater.Com (onde publicou “The 38 Essential Lisbon Restaurants”) e Cook.Inc (Itália). Tem publicado o livro“Lisboa à Mesa - Guia onde Comer. Onde Comprar”, com edições em português, inglês e espanhol (na Planeta) e foi argumentista/roteirista do programa de TV “Gosto de Portugal”, da Fox  24 Kitchen.

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