Opinião Produtor

O bom exemplo da Malhadinha e de como há alternativas ao “novo” Alentejo de agricultura intensiva 

À medida que o jipe ia percorrendo lentamente as estradas da herdade, ouvia Paulo e Margaret falarem com entusiasmo sobre o trabalho que têm vindo a desenvolver ali, mostrando os exemplos: as novas azinheiras, que se juntam a muitas outras bem antigas; a vida nos solos entre as linhas das vinhas, a revelar dispensa de tratamentos com produtos agroquímicos de síntese; os medronheiros plantados recentemente e a sua importância para atrair e fixar espécies auxiliares no combate às pragas; o olival tradicional de azeitona galega; os campos com novas culturas, como trigo barbela, que complementa a seara onde já existem outros plantações de trigo, aveia, centeio e cevada; ou as vastas áreas de pasto, onde circulam livremente animais de raças autóctones: rebanhos de ovelhas merinas, manadas de bovinos de raça alentejana, e cavalos puro-sangue lusitano. Algumas destas actividades já eram uma componente da vida na propriedade, mas a forma como tudo se conjuga agora, de uma forma mais integrada, faz parte de uma nova etapa da Herdade da Malhadinha Nova (HDM) no sentido de criar uma maior biodiversidade no lugar, convertido para modo biológico em 2017 – e com certificação oficial a partir de 2020.

Na última década, a paisagem de certas zonas do Alentejo tem mudado radicalmente, devido à introdução de culturas de regadio – muitas delas intensivas -, alimentadas pela água do Alqueva. Porém, o que encontramos na Malhadinha é o oposto. É aquela paisagem idealizada da planície dourada do Baixo Alentejo, das searas e do montado a perder de vista. É uma beleza idílica que revela igualmente um reverso da moeda, o da pobreza dos solos e da escassez de água. Porém, a área de montado que ocupa uma boa parte da herdade tem sido uma aposta, em contraciclo com a regressão que se tem vindo a verificar, não só em Portugal, mas em toda a bacia mediterrânica. 

Criada em 1998, a partir de uma terras abandonadas adquiridas pela família Soares – da Garrafeira Soares, líder no comércio de bebidas no Algarve – a HMN começa por surpreender pela extensão. Na altura eram “apenas” 200 hectares (o equivalente a 200 campos de futebol…). Porém, ao longo dos tempos, foram adquirindo outras parcelas vizinhas, perfazendo hoje um total de 450 ha. Destes, apenas 80ha são de vinhas, cultura que não existia no local e que foi plantada pela família, dando origem a uma marca cujo nome rapidamente se impôs e com uma produção que, dependendo do ano, anda pelas 300/350 mil garrafas, o que os coloca como produtores de média dimensão. 

A maior parte da área total é então ocupada por pastagem com montado de azinho, cereais e olival tradicional. A seguir aos vinhos, a hotelaria é a segunda vertente mais conhecida da HMN, graças ao pequeno hotel de charme instalado no local e que desde 2020 faz parte da prestigiada rede Relais & Châteaux. Esta área tem vindo a crescer com a criação de novos núcleos de alojamentos espalhados pela propriedade, num total de 26 quartos, o que dá para perceber que o negócio tem mais a ver com qualidade do que quantidade e que a densidade de construção é baixíssima – existindo, praticamente, apenas onde já havia algo edificado ou em ruínas. A actividade menos conhecida do consumidor é a parte de agropecuária, nomeadamente a criação de gado para abate criado em regime extensivo, a coudelaria (criação de cavalos de raça lusitana para fins desportivos), e também a produção de azeite, mel, forragens destinadas aos animais e cereais.

Antes de partir para esta visita à Malhadinha, a ideia que tinha era a de uma empresa familiar que se impôs no mercado competitivo dos vinhos de uma forma notável, recorrendo à imagem da família como eixo de comunicação. Os dois irmãos, João e Paulo Soares, bem como Rita, casada com o primeiro, e mais tarde Margaret, esposa do segundo, eram a cara da empresa, cujos rótulos dos vinhos eram desenhados pelas crianças da família, que por sua vez também deram o nome a certas colheitas/edições especiais. A esta imagem juntei-lhe mais tarde a aposta na hotelaria de luxo, com o referido hotel e um restaurante, por onde passou um então jovem chef de culto, Vítor Claro, e que mais tarde viria a ter Joachim Koerper, do Eleven, como consultor.

João, Rita, Paulo e Margaret Soares

Nas pouco mais de 24 horas que estivemos na Malhadinha, deu tempo para perceber que embora a imagem que tinha não fosse incorrecta, era redutora. Mais tarde, sentado no pátio do enorme quarto da Casa do Ancoradouro, ainda inebriado pela paisagem a perder de vista que se recusava a sair da retina (quer em termos reais, quer metafóricos), dei por mim a questionar-me: qual a razão de todo o investimento, de toda aquela extensão e práticas agrícolas que não serão as mais rentáveis?  ou, ainda, porquê uma grande aposta em algo que sendo importante e complementar à actividade dos vinhos não é imprescindível? Ou, por último: não sendo a família da região, nem tendo uma ligação de gerações ao campo, de onde viria a ligação a este Alentejo mais puro e tradicional?

É certo que para além do negócio, deverá haver um lado hedonista vinculado ao usufruto próprio do lugar ou até um certo status que a sua posse lhe dá. Também é bem provável que tenham outros negócios mais rentáveis e que se podem dar ao luxo de investir em algo cujo retorno financeiro não é imediato. Na verdade, não é preciso ser um observador estupidamente atento para perceber que o apego à terra foi algo que foi crescendo com a família e que sentem orgulho e satisfação no trabalho efectuado ao longo destes mais de 20 anos, na marca que construíram e na convicção que os novos passos dados em relação a uma actividade mais sustentável são os correctos e que este é um legado que querem deixar para as próximas gerações. 

Como referi acima a componente hoteleira tem sido uma das maiores apostas – e Rita Soares a sua cara mais visível. A construção nos vastos terrenos da herdade surge por núcleos. Num primeiro, próximo da casa da família, fica o restaurante, a adega e área mais recente, com a recepção, loja e wine bar. Num segundo núcleo, temos o Monte da Peceguina, a cerca de 1km, que inclui várias suites, uma área de estar, com apoio de bar e de comidas, piscina e o Spa (que no momento estava em remodelação). 

Umas boas centenas de metros mais à frente, surge um núcleo novo, a Casa do Ancoradouro. A intervenção é mais contemporânea, mas as valências são idênticas ao do anterior (sem o spa). Não muito longe dali, existem ainda outros espaços isolados, de diferentes tipologias e estilos. Estes núcleos estão inseridos num ambiente campestre (ao gosto urbano), onde o espaço é uma constante. Há uma forte ligação ao lugar e a interferência na paisagem foi minimizada. Por exemplo: os caminhos são em terra batida, ou gravilha (junto às casas) e os arrelvamentos raros. Por sua vez, a intervenção nos espaços procura respeitar a memória da arquitectura alentejana sendo isso bem visível na nova área, onde ficámos, ainda que os interiores tenham sido dotados de uma linguagem contemporânea, nomeadamente na decoração e no conforto.  

À mesa com vinhos

À noite tive oportunidade de jantar com o casal Soares no restaurante, momento que foi aproveitado para provar os vinhos da casa, em conjunto com alguns pratos do menu. O lugar, a carta e o estilo de cozinha, da responsabilidade do simpático chef residente Rodrigo Madeira, com supervisão de Joachim Koerper e Cintia Koerper (na parte de pastelaria), afinam pelo ambiente do local – requintado sem ser pomposo – notando-se um equilíbrio entre um receituário actual e uma base de cozinha de conforto. No restaurante, a maioria dos produtos utilizados são provenientes da propriedade, como é o caso de praticamente todos os vegetais, boa parte das frutas, assim como as carnes de aves de capoeira, borrego e de vaca, os ovos, as farinhas, o mel e o azeite. O que não é de produção da herdade, como o é caso de peixes e mariscos, vem de perto, do Algarve, que fica a pouco mais de uma hora. Também a carne de porco vem da zona, uma vez que praticamente abandonaram a sua criação. 

Os pratos que experimentei em geral pareceram-me bem. O camarão do Algarve com ostra soube lindamente com o surpreendente Malhadinha Rosé Bruto Natural 2016, um espumante de tonalidade levemente salmonada, fresco e complexo. O segredo da frescura parece estar na colheita que é feita mais cedo e, sobretudo, na bairradina casta Baga, de uma vinha nova plantada na propriedade, que faz parte do lote em partes idênticas, junto com Tinta Miúda e Touriga Nacional. Foi uma surpresa, pois nunca conheci um espumante com esta qualidade proveniente de zona tão quente. Provámos ainda de entrada, o tártaro de atum, e um guloso ovo a baixa temperatura com espinafre, batata-doce e pão alentejano crocante. O mero, do prato de peixe do dia, não era fantástico (estava um pouco borrachudo), ao contrário do acompanhamento, um arroz cremoso com algas da ria formosa, de bago aberto no ponto a absorver todos os sabores sem ficar empapado. Gostei ainda das sobremesas, sobretudo da “Meloa e hortelã”, uma mousse de limão, suspiro de hortelã, meloa macerada, gelado do mesmo fruto com a menta e gel de tangerina. 

Um parêntesis, para referir que certos pratos de cariz mais regional podem ser solicitados e apreciados nos núcleos, que dispõem de cozinha e uma pequena equipa. Foi assim que nesse dia, ao almoço, no Monte da Peceguina, Vitalina Santos nos brindou com uma série de pratos e petiscos regionais, entre eles uns óptimos ovos mexidos com farinheira e umas plumas de porco preto com umas migas de estalo. 

Voltando ao jantar, a comida e a conversa puxaram pelos vinhos e foi interessante poder experimentá-los desta forma e não numa prova isolada. De um modo genérico, houve vinhos que corresponderam ao que esperava, sobretudo as colheitas mais novas: bem feitos, equilibrados, reveladores do investimento na vinha e na adega e uma espécie de beabá da enologia moderna, onde não há lugar a rebeldias, sobretudo naqueles que são a espinha dorsal da marca. Não estou a dizer que são todos iguais ou que não têm a sua personalidade. Apenas, não são exactamente a minha praia, que nesta última década, em termos filosóficos e de gosto, têm ido cada vez mais no sentido dos ditos vinhos naturais ou de intervenção mínima. Porém, isso não significa que não saiba reconhecer a qualidade ou que nada me tivesse surpreendido. Pelo contrário, agradou-me sobretudo algumas das colheitas mais antigas, e outas não tão antigas, mas já com alguns anos. Nesse sentido, houve três vinhos que se destacaram, todos de produção em micro ou pequena escala e provavelmente filiados na tal enologia moderna a que torço o nariz (toma, vai buscar, Miguel!). Por exemplo, além da surpresa em relação espumante, também nunca esperei que o primeiro Malhadinha tinto, de 2003 (10 850 garrafas produzidas nesse ano), pudesse estar tão em boa forma, passados cerca de vinte anos. Ainda para mais sendo de vinhas tão novas na altura (foi a primeira colheita) e de um ano escaldante. Já bebi vários rótulos famosos desse ano que passada uma década estavam mais mortos que vivos. De uma colheita mais recente, não me trocou as voltas, mas apreciei ainda o Vale Travessos 2016, um branco sério, complexo, com volume de boca e boa acidez.  Foram feitas apenas 669 garrafas, com uvas de várias castas provenientes de 2 hectares de uma parcela de vinhas velhas com mais de 50 anos (que no total tem 7.5ha), que fica a poucos quilómetros propriedade, que a família comprou em 2016.

Vale de Travessos 2016, um dos vinhos servidos ao jantar

O vinho biológico e a mudança (ou não) de paradigma 

Os vinhos são principal negócio da HMN e a razão (pelo menos no início) de tudo o resto existir. A reconversão da produção agrícola da propriedade para biológico traz uma mudança e um grande benefício para o meio ambiente. O tema gera alguma controvérsia, porém, à partida, essa reconversão deverá trazer uma maior pureza aos vinhos a médio prazo. Claro, entre outros factores, também depende das práticas enológicas. Normalmente, produtores de média ou grande dimensão não costumam fazer grandes mudanças em termos de enologia ou, pelo menos, não o fazem de um momento para o outro. Primeiro, porque a reconversão demora alguns anos, o que dá tempo de se irem aproximando das novas práticas. Depois, porque a certificação bio não é assim tão restritiva em termos de utilização de produtos enológicos. Tome-se como exemplo, o caso do dióxido de enxofre (SO2), que dá origem aos tão falados sulfitos: num vinho convencional podem ser adicionados 150 ml/l (brancos) ou 200 ml/l (tintos), enquanto num bio esse limite é de 100 -150 ml/l (nos naturais anda pelos 30 ml/l). Ora, hoje em dia, mesmo os melhores produtores de vinhos convencionais não bio de gama média/alta e alta, não ultrapassam os limites de SO2 impostos para o bio. Por último, diria, também, que é normal que o produtor não queira mudar o perfil dos seus vinhos, por questões do seu gosto pessoal e por temer a reacção do consumidor fiel. 

Outra questão é da utilização ou não de leveduras indígenas. Uma das características do trabalho na vinha em bio é o de possibilitar a existências de leveduras em quantidade e diversidade para fermentar correctamente o vinho e transmitir-lhe uma identidade própria. Acontece que nem sempre se consegue essas condições ideais e algumas dessas leveduras, sobretudo em anos mais difíceis, podem ser problemáticas e contaminar o que está à sua volta, razão pela qual a maior parte dos enólogos que lidam com produções maiores nem quer ouvir falar disso, preferindo “exterminá-las” (adicionando SO2, por exemplo) para depois inocular o mosto com leveduras comerciais selecionadas. Assim, não correm riscos mesmo que o processo possa levar parte da identidade e da vivacidade do vinho (até porque acham isso uma falácia) . Portanto, a dimensão aqui também tem a sua influência nesta questão: uma coisa é produzir três mil, dez mil ou até mesmo trinta mil garrafas, outra coisa são trezentas mil. Talvez por isso, mas também por convicção e filiação no campo da enologia moderna, avessa a romantismos, deduzo que Luís Duarte, o enólogo consultor responsável pelos vinhos da Malhadinha, desde o início do projecto (Nuno Gonzalez é o enólogo residente), desencoraje a aventura numa direcção mais minimalista. Todavia, na conversa com o Paulo e a Margaret fiquei com a sensação de que ainda assim gostariam de fazer algumas experiências nesse sentido. 

Para terminar, importa dizer que a Herdade da Malhadinha não é um oásis no deserto alentejano. Felizmente, há uma série produtores a fazer um trabalho exemplar em termos de agropecuária com uma forte componente ecológica – como são os casos apresentados no site do Projecto Matéria, por exemplo. Porém, dou muito valor, também, a operadores com outra dimensão e visibilidade que fizeram ou têm vindo a fazer a reconversão para um sistema mais sustentável. Sobretudo, quando não é uma forma de “green wash” ou apenas para receber uns subsídios.

Co-autor do Mesa Marcada. Escreve sobre gastronomia no Público, Revista de Vinhos (crítica gastronómica) e em títulos internacionais como Cook Inc (Itália), Eater.com (EUA) e Gula (Brasil). É autor do livro “Lisboa à Mesa - Guia onde Comer. Onde Comprar”, com edições em português, inglês e espanhol (na Planeta).

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