Não há como disfarçar a decepção com a atribuição de estrelas aos restaurantes portugueses no Guia Michelin para 2024. Era a primeira vez que o famoso guia vermelho fazia uma Gala em Portugal somente para os nossos restaurantes (decorreu no hotel Nau Salgados, em Albufeira) e havia muito boa gente a antecipar – eu incluído – que eles iriam aproveitar o brilho da ocasião para fazer justiça a quem há tanto tempo esperava por ela. Mas nada disso, nada da esperada “Chuva de Estrelas”, foi o normal: quatro novos restaurantes com uma estrela e um com duas estrelas. Só para comparar, no guia anterior, os inspectores Michelin tinham-nos concedido cinco novas estrelas. Não deixando de ser um ano positivo, ficou sobretudo a grande desilusão por voltar a ser negada a terceira estrela (a classificação máxima do guia) a um restaurante português, o que seria inédito e muito adequado para o nível que já atingiram pelo menos três deles – o Belcanto, o Ocean e o The Yeatman –, na minha opinião e de muitas pessoas que acompanham esta área e que conhecem a sua qualidade e consistência. E, certamente, em breve, outros restaurantes ambiciosos, à medida que consolidem o seu estatuto de duas estrelas, estarão no mesmo patamar.
Há que não perder a noção de que uma coisa são as estrelas Michelin outra é a Gala. Se as primeiras são centenárias (em França, datam de 1926, sendo que o Guia, ainda sem estrelas, foi fundado em 1900), a segunda surgiu só em 2010, em Madrid, precisamente para celebrar os 100 anos do primeiro guia relativo a Espanha e Portugal, datado de 1910. Esta primeira Gala deu tão certo, teve tanto êxito mediático – e muito provavelmente financeiro – que a Michelin ibérica não só começou a realizá-las todos os anos em diversas cidades espanholas (uma vez, em Lisboa, em finais de 2018, relativa ao guia de 2019) como a empresa a estendeu a outros países onde o guia está presente. Com o grande decréscimo das receitas oriundas das vendas do guia impresso, devido ao rápido crescimento do digital (o guia português de 2024, por exemplo, não terá existência em papel), as Galas passaram a ser um meio da Michelin angariar fundos para a sua actividade, oriundos de entidades oficiais e de patrocinadores, algo perfeitamente legítimo para uma empresa privada que tem que dar lucro. No caso, esta primeira Gala exclusivamente portuguesa, além dos patrocínios privados, teve o apoio de 400 mil euros do Turismo de Portugal (cerca de 50% do orçamento anual que esta entidade dedica à gastronomia) e de 50 mil euros do Turismo do Algarve, como foi publicamente divulgado.
A Gala portuguesa teve claramente aspectos positivos, a começar por ter reunido uma quantidade impressionante de profissionais do sector, vários deles merecedores de subidas ao palco para receber distinções e fazerem pequenos discursos de agradecimento, mas de alguma forma menorizou os nossos restaurantes. Isto porque não era habitual nestas Galas chamar ao palco quem apenas passa a ser Recomendado no guia ou recebe a distinção Bib Gourmand, atribuída a restaurantes de boa cozinha a preço moderado. No entanto, como se comentava na última Gala conjunta Espanha e Portugal, realizada em Toledo em finais de 2022, quando foi anunciada a “emancipação” portuguesa, se na nossa Gala só subissem ao palco os chefes que recebessem novas estrelas, a coisa durava uns 15 minutos, sem contar os muitos discursos (e agora, também, “momentos musicais”) que sempre ornamentam estas ocasiões. Portanto, era preciso ocupar o palco para que a Gala fizesse jus ao nome e durasse pelo menos umas duas horas. Vai daí, toca a chamar ao palco todos os chefes dos 21 novos restaurantes Recomendados e dos novos oito Bib Gourmand e dar-lhes até direito à palavra. Foi certamente bom para eles, agradável de ver para quem, como eu, conhece alguns deles, mas mostra bem que ainda há muitas estrelas a atribuir aos restaurantes portugueses. Ainda por cima, as plataformas digitais do guia vão actualmente introduzindo novos Recomendados e Bib Gourmand ao longo do ano, o que torna ainda mais discutível esta “celebração” em palco.
Quanto às novas estrelas, com o que elas trazem de reconhecimento e de recompensa aos restaurantes, pareceram-me todas muito bem atribuídas. Vítor Matos, cujo Antiqvvm, no Porto, conquistou a segunda estrela, e o 2Monkeys, em Lisboa (onde Francisco Quintas é o chefe residente), ganhou a primeira, é certamente merecedor destas distinções. Rodrigo Castelo (Ó Balcão, Santarém, o primeiro restaurante estrelado do Ribatejo) e João Sá (Sála, Lisboa) são dois chefes que há muito sonhavam com estas estrelas e bem trabalharam para as conquistar. Finalmente, menos conhecido mediaticamente, o madeirense Octávio Freitas, do Desarma (Funchal) vê recompensada uma carreira de 26 anos e fez um belo discurso, dirigido aos jovens da sua terra, defendendo que não é preciso sair da ilha e ir para um grande centro para ter êxito. Por muitas críticas que se lhes façam, os inspectores da Michelin têm a excelente qualidade de focar os holofotes mediáticos em restaurantes e chefes como estes, alguns deles menos conhecidos. Também as três estrelas que se perderam em três restaurantes se justificam: duas por encerramento – Largo do Paço (Casa da Calçada), em Amarante, e Eneko, em Lisboa – um, o algarvio Vistas, em Vila Nova de Cacela, por saída do chefe Rui Silvestre.
Concluindo, é impossível não ficar contente ao ver a alegria com que as estrelas – e também as indicações de Recomendado e Bib Gourmand – são recebidas pelos chefes e por quem gosta deles e não há dúvida que nenhuma distinção provoca o mesmo efeito do que a concedida pela Michelin. Por outro lado, parece evidente que os inspectores Michelin, que actualmente serão oriundos de vários países e não apenas de Espanha, como era o mais comum até agora, estão a fazer mais visitas aos nossos restaurantes, o que terá resultado principalmente em novidades nos indicados, dispersos por todo o país. O que é muito positivo, não só para quem cá vive, mas para quem nos visita. Mas fica sempre a sensação que a Michelin, com Gala ou sem Gala exclusiva, continua a ter um grau de exigência com os restaurantes portugueses que não aplica noutros países, negando-lhes estrelas óbvias. Enfim, para o ano há mais.
Nota: artigo publicado originalmente na edição de Março da Revista de Vinhos
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