De Paris ao Porto: como Julien Montbabut trocou foie gras por espargos de Guimarães
No Le Monument, o chef francês Julien Montbabut abandonou os produtos importados e apostou nos ingredientes portugueses. Uma jornada de descoberta que transformou a sua cozinha francesa e revelou uma nova identidade gastronómica, mais autêntica e ligada ao terroir local
À semelhança de vários outros chefs estrangeiros que se estabeleceram em Portugal, também Julien Montbabut iniciou o seu percurso culinário recorrendo maioritariamente a produtos importados, no seu caso, de França. Poderá causar estranheza descobrir que esta prática ocorreu há pouco tempo — apenas seis anos — quando tal procedimento era algo comum aos cozinheiros que aqui se instalaram há duas ou três décadas, e que julgávamos já ultrapassada.
Julien explica esta opção com o escasso tempo disponível para montar o restaurante antes de abrir e, também, ou sobretudo, pela missão específica que lhe fora atribuída na altura: criar de raiz um espaço gastronómico autenticamente francês, no recém-inaugurado hotel de idêntica proveniência, no Porto, o cinco estrelas Le Monumental, da cadeia de hotéis de luxo Maison Albar.
Na verdade, a sua tarefa consistia em reproduzir por cá a mesma proposta que oferecia no Le Restaurant, que liderava em Paris, galardoado com uma estrela Michelin. E na cabeça do chef francês, a única forma de garantir essa autenticidade passava por trazer de França os produtos essenciais. Acontece que quando se abre um restaurante — ainda por cima inserido num hotel e no centro de uma cidade com história — nunca se sabe se o projecto irá resultar. No caso de Julien, essa dúvida dissipou-se rapidamente, mas não da forma que desejaria: de início, não resultou.
Julien e a sua mulher, Joana Thöny Montbabut, chefe pasteleira, viveram os primeiros tempos com alguma frustração. Ela ainda permaneceu em França no período inicial, prestes a dar à luz o segundo filho do casal, enquanto ele se lançava no novo desafio, seguindo à risca o que lhe tinha sido pedido: uma cozinha de fine dining, francesa, com o objectivo de atrair um público exigente e, ainda que não fosse dito de forma directa, conquistar o mais rápido possível uma estrela Michelin.
Contudo a realidade foi outra. Nem clientes em número suficiente, nem estrelas. Houve noites em que a sala esteve praticamente vazia. Como aconteceu com tantos outros projectos, foi a pandemia que serviu de pretexto para parar, reflectir e repensar o caminho. Estaria a fazer sentido o que estavam a construir? O cozinheiro chegou à conclusão de que não, que era preciso olhar mais para o que estava à sua volta, aproximar-se do país e do território.
Começou então a sair do restaurante, com a sua pequena equipa de cozinha e já com a Joana ao seu lado, para conhecer melhor Portugal, os seus produtos e os actores por detrás deles.
Iniciou em Aveiro, e a partir daí foi conhecendo outros produtores: trutas, framboesas, espargos… criou uma rede. Foi nesse contexto que, em 2020, conheceram os responsáveis da Espargos Verdes, Pedro Martins da Costa e Sara Taveira, que tinham começado a cultivar um dos vegetais predilectos dos chefes de cozinha, em São Torcato, perto de Guimarães. Na altura, Julien procurava espargos de alta qualidade, algo pouco comum em Portugal.
“Gosto de visitar os produtores antes de iniciar uma colaboração com eles, perceber como produzem, quais as suas dificuldades”, explicou-me Julien durante uma visita em que o acompanhámos à plantação. “Nós, cozinheiros, pedimos espargos perfeitos, grandes, direitos e bem verdes, mas é importante perceber o que está por detrás dessa produção.”
A ligação com os produtores tornou-se essencial. “Estamos todos com vontade de trabalhar melhor e isso nota-se. É bom ver pessoas com trabalho consistente”. Essa consistência é crucial para nós, porque estamos no fim da cadeia, a servir clientes. E, como estrangeiro, faz todo o sentido apoiar a economia e o mercado local, trabalhar com pessoas como eles”, remata.
Do lado da Espargos Verdes, os primeiros tempos não foram fáceis. Antes da pandemia, vendiam tudo a um único cliente, sem necessidade de embalagens. Durante o confinamento, também tiveram de se reinventar: criaram uma presença nas redes sociais, começaram a vender para particulares e a fazer entregas no Porto, Braga, Viana e Guimarães. “Fazíamos tudo sozinhos. Chegámos a escrever à mão os nomes dos clientes nas caixas”, contou-me Sara Taveira.
O produtor de espargos Pedro Martins da Costa, da Espargos Verdes, com Julien Montbabut
Julien volta ao tema da identidade e do seu propósito, depois de tomar consciência e de aplicar uma nova orientação ao conceito do Le Monument. “Não quero fazer um cozido à portuguesa — há quem o faça muito melhor — quero cozinhar à francesa, que é a minha identidade, mas com produtos portugueses, respeitando o terroir. É o que faz sentido para mim.”
A abordagem de Julien reflecte-se também na sua preferência por produtos locais. “Acho curioso: em França, tendemos a procurar produtos como azeite do Sul de França. Aqui, vejo muitos portugueses a usar wagyu japonês. Para mim, como francês, não faz sentido cozinhar wagyu em Portugal. Prefiro trabalhar com o que existe cá e fazê-lo bem”, afirma-me agora, quando saímos da plantação em direcção à quinta onde Pedro e Sara fazem a limpeza, triagem e o embalamento antes de serem enviados aos clientes. Esperava-nos um almoço descontraído, preparado por Julien e Maria de Fátima, a cozinheira da casa, com queijos, enchidos, espargos — muitos espargos — e outras iguarias, na cozinha antiga da casa senhorial da quinta, regado com vinhos da região, a dos Vinhos Verdes, alguns elaborados pelo próprio Pedro, que na verdade é enólogo de formação e também (ainda) de profissão.
Com a crescente procura por parte de chefs, perceberam rapidamente que, para trabalhar com a restauração, era necessário garantir duas coisas: qualidade e consistência. “Não podíamos fornecer espargos só durante três semanas”, tinham de planear o cultivo de modo a assegurar “pelo menos dois meses, para poderem entrar nas cartas dos restaurantes. Isso tornou-se um dos nossos princípios.”
Ainda voltarei à Espargos Verdes num outro artigo, a publicar mais à frente. Para já, de barriga cheia voltámos ao Porto, com direito a uma pausa, antes do jantar.
O jantar no Le Monument
Após um aperitivo no cocktail bar do hotel, a sessão do jantar iniciou-se com uma passagem pela cozinha. É aqui que Julien Montbabut dá normalmente as boas-vindas aos clientes e foi aqui que nos recebeu com um primeiro snack. Reparei nos boiões enormes de vinagres com ervas e flores em infusão.
“Há três anos começámos a fazer os nossos próprios vinagres: usamos uma base de vinagre de sidra infusionada com plantas e ervas, que vamos alimentando à medida que entram na estação — sabugueiro, lúcia-lima, etc.” Um deles, o de sabugueiro, fomos encontrá-lo, mais à frente, num dos pratos do menu, num molho de iogurte e ervilhas.
O primeiro snack é servido na visita inicial à cozinha
Durante o jantar no restaurante Le Monument, ficou clara essa identidade construída entre as duas culturas. O menu de degustação, impresso como um pequeno guia, estava pensado como uma viagem por Portugal, com nove momentos — alguns mais narrativos do que outros — que revelavam tanto a intenção como o caminho que têm percorrido.
No início, havia um pão folhado com azeite de Foz Côa que juntava a tradição portuguesa ao saber técnico francês e que era um bom exemplo da fusão entre os dois mundos do casal. Neste caso, com assinatura da Joana, tínhamos uma espécie de mistura de pão e croissant, numa massa elaborada com manteiga (à séria), que depois era pincelada com azeite. Foi preciso algum cuidado para não deglutir de uma só vez tamanha gulodice porque a ideia é mergulhá-lo em mais azeite.
pão folhado com azeite de Foz Côa
Após uma série de três snacks (imagem acima), chegam-nos os espargos, da quinta que visitámos nessa tarde. Foram cozinhados ao sal e é ainda nessa crosta que chegam à mesa a requerer um trabalho de sala, de encenação, que valoriza o produto e a experiência. Quando retirados do sal, verifica-se que os espargos estão protegidos por papel vegetal, o que me leva a crer que o resultado não deve ser muito diferente de uma cocção a vapor, mas é verdade que desta forma, tem um outro impacto visual e permanecerá mais facilmente na memória. Ah! e posso também testemunhar que estavam impecáveis, ou estava, porque era só uma unidade, mas de bom calibre, que vinha no ponto certo (com uma ligeira resistência ao dente) a revelar aquela mistura de sabor herbáceo com um ligeiro adocicado, que tanto aprecio, e que só foi valorizado pelo créme de amêndoa e pela emulsão de poejos que o acompanhava.
Um dos outros momentos altos foi a sapateira de Vila do Conde, apresentada como um clássico do chef, agora adaptado ao novo conceito com mariscos locais. Há uma fusão bem conseguida entre o lado doce da sapateira, a textura crocante da telha açucarada, o toque cítrico do yuzu e o leve acre da mostarda a espevitar.
Do menu, destacou-se também o prato de borrego. Muitas vezes, perante menus dominados por vegetais, peixes e mariscos dou por mim a dispensar a carne. Porém, aqui, ainda bem que não o fiz: apreciei a preparação, com um pedaço suculento e de sabor suave, conjugado com outro, quase só pele estaladiça, mais assertivo. Tratava-se de borrego de raça merina alentejana — e não dos Pirenéus. Ao contrário de alguns chefes que ainda se queixam da falta de consistência na qualidade Julien tem encontrado regularidade na quantidade e qualidade do borrego vindo do Alentejo.
os espargos são preparados “ao sal”
…protegidos em papel vegetal
toque final com bottarga
prato de assinatura de Julien, com sapateira de Vila do Conde
borrego merino alentejano
Por fim, nas sobremesas, foi a vez da Joana brilhar. A chef pasteleira é uma confessa adepta de chocolate e de frutas e conjuga ambos os produtos na mesa com outros ingredientes. No caso, servido em trio, tivemos uma taça de morangos do Douro em várias preparações:crus, em sumo concentrado e em polpa; noutro recipiente, vinha um gelado de pipoca, em que o milho insuflado era infusionado em leite antes de ser transformado em gelado e, por fim, uma espuma de pão “quase queimado” com um sabor de cereal caramelizado, metidos num aro de biscoito muito fino mergulhado em chocolate. Parecia complexo (e tecnicamente deve ser mesmo) mas além dos sabores bem definidos estava tudo na dose certa e com a doçura equilibrada.
Reflexão final
Já no quarto, fiquei durante um certo tempo a pensar neste dia e a processar a informação e todo o propósito desta viagem. Pode ser defeito de formação, provavelmente herança da minha anterior ligação à publicidade, mas não raras vezes fico a pensar no lado conceptual dos projectos, nos conceitos e nas narrativas.
Isto para dizer, que não conheci a fase inicial do Julien, mas acredito que a sua proposta original, com todos os seus produtos importados, era certamente boa e competente. Porém, compreendo os motivos que lhe permitiram dar a volta por cima, e sentir hoje o seu trabalho e de toda a equipa mais reconhecido.
Em primeiro lugar, é fundamental, que quem comanda a cozinha se sinta bem na sua pele, e isso observa-se quando se vai para a estrada com ele, um gosto genuíno de estar em contacto com os produtores e com os produtos, de meter as mãos na terra, de os provar no local. Já realizei várias visitas do género com cozinheiros e dá para perceber quando há empatia entre as partes, como a que presenciei entre o chef e o casal da Espargos Verdes (ou com outro produtor, como documenta este episódio na RTP).
Essa autenticidade parece-me essencial — ainda mais quando dessa relação resulta o acesso a produtos de excelência. De igual modo, o storytelling também tem a sua relevância. É que embora directamente não torne a comida mais saborosa, melhora a sua percepção. E a impressão que um cliente leva no final – e no caso, a sua grande maioria é estrangeira –, depois do periplo pelo país através dos ingredientes, da sua transformação no prato, da narrativa do tal livrinho e das explicações da equipa de sala, é certamente outra depois de todas estas peças em cima do tabuleiro.
No final, embora continue a ser uma cozinha de base francesa, o que verdadeiramente evoluiu foi a forma de olhar, de procurar os ingredientes locais e uma narrativa para os valorizar. Esta transformação não permite apenas melhorar a percepção por parte do cliente, também representa uma adaptação genuína por parte de quem lidera a cozinha – uma evolução com propósitos autênticos.
Julien a preparar um hollandaise, molho clássico da sua cozinha francesa, com ingredientes portugueses, numa cozinha tradicional portuguesa (na casa da Espargos Verdes), é uma boa metáfora visual do seu actual momento
Contactos:
Le Monument: Avenida dos Aliados 151, Porto | Tel: 227 662 410 |Email para reservas: porto.reservations@maisonalbar.com
Horário: de terça a sábado, das 18h30 às 20h30
. Espargos Verdes – Guimarães
Morada: Quinta de Segade, São Torcato, 4800 Guimarães, Portugal | Tel: 935 474 084 | Email: info@espargosverdes.com
À semelhança de vários outros chefs estrangeiros que se estabeleceram em Portugal, também Julien Montbabut iniciou o seu percurso culinário recorrendo maioritariamente a produtos importados, no seu caso, de França. Poderá causar estranheza descobrir que esta prática ocorreu há pouco tempo — apenas seis anos — quando tal procedimento era algo comum aos cozinheiros que aqui se instalaram há duas ou três décadas, e que julgávamos já ultrapassada.
Julien explica esta opção com o escasso tempo disponível para montar o restaurante antes de abrir e, também, ou sobretudo, pela missão específica que lhe fora atribuída na altura: criar de raiz um espaço gastronómico autenticamente francês, no recém-inaugurado hotel de idêntica proveniência, no Porto, o cinco estrelas Le Monumental, da cadeia de hotéis de luxo Maison Albar.
Na verdade, a sua tarefa consistia em reproduzir por cá a mesma proposta que oferecia no Le Restaurant, que liderava em Paris, galardoado com uma estrela Michelin. E na cabeça do chef francês, a única forma de garantir essa autenticidade passava por trazer de França os produtos essenciais. Acontece que quando se abre um restaurante — ainda por cima inserido num hotel e no centro de uma cidade com história — nunca se sabe se o projecto irá resultar. No caso de Julien, essa dúvida dissipou-se rapidamente, mas não da forma que desejaria: de início, não resultou.
Julien e a sua mulher, Joana Thöny Montbabut, chefe pasteleira, viveram os primeiros tempos com alguma frustração. Ela ainda permaneceu em França no período inicial, prestes a dar à luz o segundo filho do casal, enquanto ele se lançava no novo desafio, seguindo à risca o que lhe tinha sido pedido: uma cozinha de fine dining, francesa, com o objectivo de atrair um público exigente e, ainda que não fosse dito de forma directa, conquistar o mais rápido possível uma estrela Michelin.
Contudo a realidade foi outra. Nem clientes em número suficiente, nem estrelas. Houve noites em que a sala esteve praticamente vazia. Como aconteceu com tantos outros projectos, foi a pandemia que serviu de pretexto para parar, reflectir e repensar o caminho. Estaria a fazer sentido o que estavam a construir? O cozinheiro chegou à conclusão de que não, que era preciso olhar mais para o que estava à sua volta, aproximar-se do país e do território.
Começou então a sair do restaurante, com a sua pequena equipa de cozinha e já com a Joana ao seu lado, para conhecer melhor Portugal, os seus produtos e os actores por detrás deles.
Iniciou em Aveiro, e a partir daí foi conhecendo outros produtores: trutas, framboesas, espargos… criou uma rede. Foi nesse contexto que, em 2020, conheceram os responsáveis da Espargos Verdes, Pedro Martins da Costa e Sara Taveira, que tinham começado a cultivar um dos vegetais predilectos dos chefes de cozinha, em São Torcato, perto de Guimarães. Na altura, Julien procurava espargos de alta qualidade, algo pouco comum em Portugal.
“Gosto de visitar os produtores antes de iniciar uma colaboração com eles, perceber como produzem, quais as suas dificuldades”, explicou-me Julien durante uma visita em que o acompanhámos à plantação. “Nós, cozinheiros, pedimos espargos perfeitos, grandes, direitos e bem verdes, mas é importante perceber o que está por detrás dessa produção.”
A ligação com os produtores tornou-se essencial. “Estamos todos com vontade de trabalhar melhor e isso nota-se. É bom ver pessoas com trabalho consistente”. Essa consistência é crucial para nós, porque estamos no fim da cadeia, a servir clientes. E, como estrangeiro, faz todo o sentido apoiar a economia e o mercado local, trabalhar com pessoas como eles”, remata.
Do lado da Espargos Verdes, os primeiros tempos não foram fáceis. Antes da pandemia, vendiam tudo a um único cliente, sem necessidade de embalagens. Durante o confinamento, também tiveram de se reinventar: criaram uma presença nas redes sociais, começaram a vender para particulares e a fazer entregas no Porto, Braga, Viana e Guimarães. “Fazíamos tudo sozinhos. Chegámos a escrever à mão os nomes dos clientes nas caixas”, contou-me Sara Taveira.
Julien volta ao tema da identidade e do seu propósito, depois de tomar consciência e de aplicar uma nova orientação ao conceito do Le Monument. “Não quero fazer um cozido à portuguesa — há quem o faça muito melhor — quero cozinhar à francesa, que é a minha identidade, mas com produtos portugueses, respeitando o terroir. É o que faz sentido para mim.”
A abordagem de Julien reflecte-se também na sua preferência por produtos locais. “Acho curioso: em França, tendemos a procurar produtos como azeite do Sul de França. Aqui, vejo muitos portugueses a usar wagyu japonês. Para mim, como francês, não faz sentido cozinhar wagyu em Portugal. Prefiro trabalhar com o que existe cá e fazê-lo bem”, afirma-me agora, quando saímos da plantação em direcção à quinta onde Pedro e Sara fazem a limpeza, triagem e o embalamento antes de serem enviados aos clientes. Esperava-nos um almoço descontraído, preparado por Julien e Maria de Fátima, a cozinheira da casa, com queijos, enchidos, espargos — muitos espargos — e outras iguarias, na cozinha antiga da casa senhorial da quinta, regado com vinhos da região, a dos Vinhos Verdes, alguns elaborados pelo próprio Pedro, que na verdade é enólogo de formação e também (ainda) de profissão.
Com a crescente procura por parte de chefs, perceberam rapidamente que, para trabalhar com a restauração, era necessário garantir duas coisas: qualidade e consistência. “Não podíamos fornecer espargos só durante três semanas”, tinham de planear o cultivo de modo a assegurar “pelo menos dois meses, para poderem entrar nas cartas dos restaurantes. Isso tornou-se um dos nossos princípios.”
Ainda voltarei à Espargos Verdes num outro artigo, a publicar mais à frente. Para já, de barriga cheia voltámos ao Porto, com direito a uma pausa, antes do jantar.
O jantar no Le Monument
Após um aperitivo no cocktail bar do hotel, a sessão do jantar iniciou-se com uma passagem pela cozinha. É aqui que Julien Montbabut dá normalmente as boas-vindas aos clientes e foi aqui que nos recebeu com um primeiro snack. Reparei nos boiões enormes de vinagres com ervas e flores em infusão.
“Há três anos começámos a fazer os nossos próprios vinagres: usamos uma base de vinagre de sidra infusionada com plantas e ervas, que vamos alimentando à medida que entram na estação — sabugueiro, lúcia-lima, etc.” Um deles, o de sabugueiro, fomos encontrá-lo, mais à frente, num dos pratos do menu, num molho de iogurte e ervilhas.
Durante o jantar no restaurante Le Monument, ficou clara essa identidade construída entre as duas culturas. O menu de degustação, impresso como um pequeno guia, estava pensado como uma viagem por Portugal, com nove momentos — alguns mais narrativos do que outros — que revelavam tanto a intenção como o caminho que têm percorrido.
No início, havia um pão folhado com azeite de Foz Côa que juntava a tradição portuguesa ao saber técnico francês e que era um bom exemplo da fusão entre os dois mundos do casal. Neste caso, com assinatura da Joana, tínhamos uma espécie de mistura de pão e croissant, numa massa elaborada com manteiga (à séria), que depois era pincelada com azeite. Foi preciso algum cuidado para não deglutir de uma só vez tamanha gulodice porque a ideia é mergulhá-lo em mais azeite.
Após uma série de três snacks (imagem acima), chegam-nos os espargos, da quinta que visitámos nessa tarde. Foram cozinhados ao sal e é ainda nessa crosta que chegam à mesa a requerer um trabalho de sala, de encenação, que valoriza o produto e a experiência. Quando retirados do sal, verifica-se que os espargos estão protegidos por papel vegetal, o que me leva a crer que o resultado não deve ser muito diferente de uma cocção a vapor, mas é verdade que desta forma, tem um outro impacto visual e permanecerá mais facilmente na memória. Ah! e posso também testemunhar que estavam impecáveis, ou estava, porque era só uma unidade, mas de bom calibre, que vinha no ponto certo (com uma ligeira resistência ao dente) a revelar aquela mistura de sabor herbáceo com um ligeiro adocicado, que tanto aprecio, e que só foi valorizado pelo créme de amêndoa e pela emulsão de poejos que o acompanhava.
Um dos outros momentos altos foi a sapateira de Vila do Conde, apresentada como um clássico do chef, agora adaptado ao novo conceito com mariscos locais. Há uma fusão bem conseguida entre o lado doce da sapateira, a textura crocante da telha açucarada, o toque cítrico do yuzu e o leve acre da mostarda a espevitar.
Do menu, destacou-se também o prato de borrego. Muitas vezes, perante menus dominados por vegetais, peixes e mariscos dou por mim a dispensar a carne. Porém, aqui, ainda bem que não o fiz: apreciei a preparação, com um pedaço suculento e de sabor suave, conjugado com outro, quase só pele estaladiça, mais assertivo. Tratava-se de borrego de raça merina alentejana — e não dos Pirenéus. Ao contrário de alguns chefes que ainda se queixam da falta de consistência na qualidade Julien tem encontrado regularidade na quantidade e qualidade do borrego vindo do Alentejo.
Por fim, nas sobremesas, foi a vez da Joana brilhar. A chef pasteleira é uma confessa adepta de chocolate e de frutas e conjuga ambos os produtos na mesa com outros ingredientes. No caso, servido em trio, tivemos uma taça de morangos do Douro em várias preparações:crus, em sumo concentrado e em polpa; noutro recipiente, vinha um gelado de pipoca, em que o milho insuflado era infusionado em leite antes de ser transformado em gelado e, por fim, uma espuma de pão “quase queimado” com um sabor de cereal caramelizado, metidos num aro de biscoito muito fino mergulhado em chocolate. Parecia complexo (e tecnicamente deve ser mesmo) mas além dos sabores bem definidos estava tudo na dose certa e com a doçura equilibrada.
Reflexão final
Já no quarto, fiquei durante um certo tempo a pensar neste dia e a processar a informação e todo o propósito desta viagem. Pode ser defeito de formação, provavelmente herança da minha anterior ligação à publicidade, mas não raras vezes fico a pensar no lado conceptual dos projectos, nos conceitos e nas narrativas.
Isto para dizer, que não conheci a fase inicial do Julien, mas acredito que a sua proposta original, com todos os seus produtos importados, era certamente boa e competente. Porém, compreendo os motivos que lhe permitiram dar a volta por cima, e sentir hoje o seu trabalho e de toda a equipa mais reconhecido.
Em primeiro lugar, é fundamental, que quem comanda a cozinha se sinta bem na sua pele, e isso observa-se quando se vai para a estrada com ele, um gosto genuíno de estar em contacto com os produtores e com os produtos, de meter as mãos na terra, de os provar no local. Já realizei várias visitas do género com cozinheiros e dá para perceber quando há empatia entre as partes, como a que presenciei entre o chef e o casal da Espargos Verdes (ou com outro produtor, como documenta este episódio na RTP).
Essa autenticidade parece-me essencial — ainda mais quando dessa relação resulta o acesso a produtos de excelência. De igual modo, o storytelling também tem a sua relevância. É que embora directamente não torne a comida mais saborosa, melhora a sua percepção. E a impressão que um cliente leva no final – e no caso, a sua grande maioria é estrangeira –, depois do periplo pelo país através dos ingredientes, da sua transformação no prato, da narrativa do tal livrinho e das explicações da equipa de sala, é certamente outra depois de todas estas peças em cima do tabuleiro.
No final, embora continue a ser uma cozinha de base francesa, o que verdadeiramente evoluiu foi a forma de olhar, de procurar os ingredientes locais e uma narrativa para os valorizar. Esta transformação não permite apenas melhorar a percepção por parte do cliente, também representa uma adaptação genuína por parte de quem lidera a cozinha – uma evolução com propósitos autênticos.
Contactos:
Le Monument: Avenida dos Aliados 151, Porto | Tel: 227 662 410 |Email para reservas: porto.reservations@maisonalbar.com
Horário: de terça a sábado, das 18h30 às 20h30
. Espargos Verdes – Guimarães
Morada: Quinta de Segade, São Torcato, 4800 Guimarães, Portugal | Tel: 935 474 084 | Email: info@espargosverdes.com
Fotos: Miguel Pires (excepto díptico de abertura)
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