Dois dias depois do lançamento da petição do Pigmeu da Ribeira e da noticia que publicámos aqui, o Time Out Market Lisboa enviou-nos um comunicado onde responde às acusações de Miguel Peres e apresenta a sua versão dos factos. O tom é firme e direto: “Infelizmente, somos persistentemente envolvidos neste assunto pelo Sr. Miguel Peres, apenas e só para lhe dar palco num conflito que aparentemente o mesmo tem com a CML.”
O comunicado, assinado por Ana Alcobia, directora do Time Out Market Lisboa, começa por deixar claro que não existe “qualquer tipo de relação, contratual ou comercial” com o Pigmeu e que desconhecem “o teor do contrato que o Sr. Miguel Peres atualmente tem ou não com a CML”. A mensagem é inequívoca: “não queremos ser envolvidos em polémicas ou eventuais disputas que o restaurante ‘Pigmeu’ tenha seja com quem for”.
Mais: o Time Out garante não ter “qualquer interesse em ficar com qualquer das suas lojas” e sublinha que é “absolutamente essencial” que a actividade tradicional de venda de produtos frescos “continue a ser exercida como é há décadas por vários vendedores independentes”.
As 11 acusações ao Pigmeu
O Time Out Market estruturou a sua resposta em 11 pontos específicos, que vão desde questões contratuais a acusações de comportamento inapropriado.
A questão da renda e da actividade. O Time Out alega que o Pigmeu paga “cerca de 150€ de renda mensal por cada loja”, valor destinado a “negócios de produtores independentes, e não a quem aqui pretende exercer atividades de restauração”. Acusa o espaço de ser “na realidade um espaço dotado de mesas com lugares sentados, com serviço de refeições” que “em termos práticos, funciona como um espaço de restauração”.
A regra da não concorrência. Segundo o comunicado, Miguel Peres sabe “pelo menos desde 2022” que existe uma regra contratual que proíbe “o exercício de atividades concorrenciais” entre quem opera no mercado tradicional e o espaço de restauração. O Time Out recorda uma declaração de Miguel Peres ao Mesa Marcada em 2023, onde dizia esperar “conseguir ter uma oferta semelhante à que apresento no restaurante de Campo de Ourique”, o que interpretam como intenção de “defraudar estas restrições”.
O uso do nome Time Out Market. A acusação é forte: desde a abertura, o Pigmeu utiliza “indevidamente o nome do Time Out Market Lisboa na sua morada e localização (e não a do ‘Mercado da Ribeira’), como se pode ver na sua referência no Google”, o que consideram “apropriação abusiva do nosso bom nome e reputação”.
A incoerência da petição. O Time Out considera “absolutamente incoerente” apresentar uma petição contra a gentrificação quando o Pigmeu “quer substituir, com o seu restaurante, o que neste local é exclusivo a vendedores tradicionais independentes”.
A acusação mais grave
Entre os 11 pontos, há um que se destaca pela gravidade: o Time Out acusa Miguel Peres de ter pedido, “nas semanas antes desta petição”, através de mensagens de WhatsApp, que fizessem “um acordo com a CML” para obter “uma compensação monetária” e assim “evitar que o caso se torne público”. O Time Out qualifica isto como “uma forma abusiva de pressão inapropriada”.
A defesa do investimento
O comunicado defende o papel do Time Out Market na recuperação do espaço, recordando que investiu “mais de 7 milhões de euros” em 2013, quando “o país vivia uma crise financeira profunda” e o Cais do Sodré era “um dos piores bairros da cidade”. Sublinha que criou “600 empregos” e questiona a narrativa de “David contra Golias”.
Quanto à “pressão política” denunciada por Miguel Peres, o Time Out diz que se trata de “normal correspondência e requerimentos formais entre empresa e Câmara”, cumprindo “mero dever de protocolo e respeito das formalidades de comunicação”.
O desafio final
O comunicado termina com um apelo aos pequenos produtores para se candidatarem às lojas disponíveis no mercado tradicional, “para que não se abra espaço a que este seja desvirtuado”. E reforça: “estas lojas são para eles, e defenderemos sempre a sua coexistência e autenticidade.”
Duas versões, nenhuma solução
Temos agora as duas versões em cima da mesa. De um lado, Miguel Peres acusa a CML de ceder à pressão do Time Out Market e de usar contraordenações inexistentes para o expulsar. Do outro, o Time Out nega qualquer interesse nas lojas, acusa o Pigmeu de operar como restaurante em espaço destinado a comércio tradicional e de usar indevidamente o seu nome.
Entre acusações e contra-acusações, a questão de fundo permanece: quem tem razão sobre o que pode ou não funcionar naquele espaço? E, mais importante, quem decide?
A petição do Pigmeu continua a circular. O Time Out Market fez a sua defesa pública. Talvez não fosse má ideia que a a Câmara Municipal de Lisboa, se pronunciasse.
Comunicado completo que o Time Out Market nos enviou está disponível [aqui]
Artigos Relacionados:
. Pigmeu da Ribeira ameaçado de expulsão do Mercado da Ribeira por 300 contraordenações que diz nunca ter recebido
. Há um novo Pigmeu no Mercado da Ribeira
Discover more from Mesa Marcada
Subscribe to get the latest posts sent to your email.
Dois dias depois do lançamento da petição do Pigmeu da Ribeira e da noticia que publicámos aqui, o Time Out Market Lisboa enviou-nos um comunicado onde responde às acusações de Miguel Peres e apresenta a sua versão dos factos. O tom é firme e direto: “Infelizmente, somos persistentemente envolvidos neste assunto pelo Sr. Miguel Peres, apenas e só para lhe dar palco num conflito que aparentemente o mesmo tem com a CML.”
O comunicado, assinado por Ana Alcobia, directora do Time Out Market Lisboa, começa por deixar claro que não existe “qualquer tipo de relação, contratual ou comercial” com o Pigmeu e que desconhecem “o teor do contrato que o Sr. Miguel Peres atualmente tem ou não com a CML”. A mensagem é inequívoca: “não queremos ser envolvidos em polémicas ou eventuais disputas que o restaurante ‘Pigmeu’ tenha seja com quem for”.
Mais: o Time Out garante não ter “qualquer interesse em ficar com qualquer das suas lojas” e sublinha que é “absolutamente essencial” que a actividade tradicional de venda de produtos frescos “continue a ser exercida como é há décadas por vários vendedores independentes”.
As 11 acusações ao Pigmeu
O Time Out Market estruturou a sua resposta em 11 pontos específicos, que vão desde questões contratuais a acusações de comportamento inapropriado.
A questão da renda e da actividade. O Time Out alega que o Pigmeu paga “cerca de 150€ de renda mensal por cada loja”, valor destinado a “negócios de produtores independentes, e não a quem aqui pretende exercer atividades de restauração”. Acusa o espaço de ser “na realidade um espaço dotado de mesas com lugares sentados, com serviço de refeições” que “em termos práticos, funciona como um espaço de restauração”.
A regra da não concorrência. Segundo o comunicado, Miguel Peres sabe “pelo menos desde 2022” que existe uma regra contratual que proíbe “o exercício de atividades concorrenciais” entre quem opera no mercado tradicional e o espaço de restauração. O Time Out recorda uma declaração de Miguel Peres ao Mesa Marcada em 2023, onde dizia esperar “conseguir ter uma oferta semelhante à que apresento no restaurante de Campo de Ourique”, o que interpretam como intenção de “defraudar estas restrições”.
O uso do nome Time Out Market. A acusação é forte: desde a abertura, o Pigmeu utiliza “indevidamente o nome do Time Out Market Lisboa na sua morada e localização (e não a do ‘Mercado da Ribeira’), como se pode ver na sua referência no Google”, o que consideram “apropriação abusiva do nosso bom nome e reputação”.
A incoerência da petição. O Time Out considera “absolutamente incoerente” apresentar uma petição contra a gentrificação quando o Pigmeu “quer substituir, com o seu restaurante, o que neste local é exclusivo a vendedores tradicionais independentes”.
A acusação mais grave
Entre os 11 pontos, há um que se destaca pela gravidade: o Time Out acusa Miguel Peres de ter pedido, “nas semanas antes desta petição”, através de mensagens de WhatsApp, que fizessem “um acordo com a CML” para obter “uma compensação monetária” e assim “evitar que o caso se torne público”. O Time Out qualifica isto como “uma forma abusiva de pressão inapropriada”.
A defesa do investimento
O comunicado defende o papel do Time Out Market na recuperação do espaço, recordando que investiu “mais de 7 milhões de euros” em 2013, quando “o país vivia uma crise financeira profunda” e o Cais do Sodré era “um dos piores bairros da cidade”. Sublinha que criou “600 empregos” e questiona a narrativa de “David contra Golias”.
Quanto à “pressão política” denunciada por Miguel Peres, o Time Out diz que se trata de “normal correspondência e requerimentos formais entre empresa e Câmara”, cumprindo “mero dever de protocolo e respeito das formalidades de comunicação”.
O desafio final
O comunicado termina com um apelo aos pequenos produtores para se candidatarem às lojas disponíveis no mercado tradicional, “para que não se abra espaço a que este seja desvirtuado”. E reforça: “estas lojas são para eles, e defenderemos sempre a sua coexistência e autenticidade.”
Duas versões, nenhuma solução
Temos agora as duas versões em cima da mesa. De um lado, Miguel Peres acusa a CML de ceder à pressão do Time Out Market e de usar contraordenações inexistentes para o expulsar. Do outro, o Time Out nega qualquer interesse nas lojas, acusa o Pigmeu de operar como restaurante em espaço destinado a comércio tradicional e de usar indevidamente o seu nome.
Entre acusações e contra-acusações, a questão de fundo permanece: quem tem razão sobre o que pode ou não funcionar naquele espaço? E, mais importante, quem decide?
A petição do Pigmeu continua a circular. O Time Out Market fez a sua defesa pública. Talvez não fosse má ideia que a a Câmara Municipal de Lisboa, se pronunciasse.
Comunicado completo que o Time Out Market nos enviou está disponível [aqui]
Artigos Relacionados:
. Pigmeu da Ribeira ameaçado de expulsão do Mercado da Ribeira por 300 contraordenações que diz nunca ter recebido
. Há um novo Pigmeu no Mercado da Ribeira
Partilhar:
Like this:
Discover more from Mesa Marcada
Subscribe to get the latest posts sent to your email.