A gala do Guia Michelin Espanha 2026, apresentada na terça-feira em Málaga, voltou a mostrar o peso e o dinamismo da gastronomia espanhola, ainda que com várias leituras paralelas que dominaram a imprensa no dia seguinte, nomeadamente a inexistência de novos três estrelas. A grande novidade é a entrada de cinco novos restaurantes com duas estrelas (face às três novidades do ano anterior): Aleia, Enigma e Mont Bar (os três em Barcelona), La Boscana (Bellvís) e Ramón Freixa Atelier (Madrid), todos apresentados como exemplos de maturidade técnica e ambição renovada. No caso do Ramón Freixa Atelier, sublinhe-se que a passagem das estrelas do antigo espaço para este novo formato mais exclusivo ajuda a explicar parte da lista dos onze restaurantes que perderam estrelas nesta edição, um tema muito comentado na imprensa espanhola — até porque as perdas nunca são mencionadas na gala.

A lista dos novos 25 restaurantes com uma estrela mostra, mais uma vez, que a descentralização continua a ser um dos motores da renovação espanhola: há entradas na Catalunha, País Basco, Madrid, Andaluzia, Astúrias, Galiza, Aragão e Cantábria, confirmando a vitalidade das regiões. Entre os novos distinguidos encontram-se Kamikaze e SCAPAR(Barcelona), Islares (Bilbau), Itzuli (Donostia), EMi e Èter (Madrid), Faralá (Granada), Mare (Cádis), Ochando (Los Rosales, Sevilha), Palodú (Málaga), ReComiendo (Córdoba), Casa Rubén (Tella), Pico Velasco (Carasa), Regueiro(Tox) e Vértigo (Sober), entre outros até perfazer o total de 25. Com estas entradas, o Guia soma agora 254 restaurantes com uma estrela, um número que, apesar de algumas perdas — incluindo encerramentos — continua a crescer de ano para ano.
Ao contrário da edição portuguesa, que não tem novos estrelados suficientes para aguentar uma gala inteira e que, por isso, chama ao palco também os “Recomendados” e os “Bib Gourmand” (o que pode ser visto pelo lado positivo, por ajudar a democratizar o Guia), em Espanha estes últimos têm apenas direito a verem os seus nomes na tela (houve 29 novos galardoados), enquanto os primeiros, os recomendados, apenas tiveram direito a uma breve referência, o que se entende porque além de haver 128 novidades, como habitualmente, a gala estendeu-se por mais de duas horas e meia.

Valeu a feliz escolha do local: o Sohrlin Andalucía, do actor António Banderas (que esteve presente), descrito por uma das vozes lusas no evento como “uma espécie de Chapitô, mas bem feito e com muito dinheiro”. A cenografia, os interlúdios e toda a estética foram irrepreensíveis, compensando os discursos intermináveis das autoridades locais e de um ou outro patrocinador do tipo “paguei, falo o tempo que eu quiser”.
As Estrelas Verdes afinal não morreram (mas perderam palco)
Outro tema muito falado nos últimos meses foi o futuro das Estrelas Verdes. Depois de alguma especulação sobre o seu eventual desaparecimento — e de, nesta gala, terem tido uma presença mais discreta do que em anos anteriores, sem o protagonismo cénico habitual — a verdade é que continuam aí. Ou melhor: continuam com pouca chama, mas vivas. Foram atribuídas cinco novas Estrelas Verdes aos restaurantes Ama (Tolosa), Bakea (Mungia), Garena (Dima), Hika(Villabona) e Terrae (Port de Pollença), todos reconhecidos pelas suas práticas sustentáveis e pela forma como integram território, produto e responsabilidade ambiental. A selecção soma agora 59 estabelecimentos distinguidos.
A ausência de Gwendal Poullennec
Lá vai o tempo em que o director mundial do Guia marcava presença em todas as galas. Com a expansão anual para novos territórios, é hoje humanamente impossível estar em todo o lado. Mas, ainda assim, não deixa de ser curioso que, tal como aconteceu na gala portuguesa, Gwendal Poullennec tenha voltado a faltar a uma das principais galas do seu próprio Guia — Espanha foi o primeiro país a organizar uma cerimónia Michelin e é, de longe, o que mais investe no evento — alegando “questões de agenda”. Enfim. Fez o seu discurso por vídeo e ninguém pareceu particularmente aborrecido com isso.
Três estrelas: nenhuma nova, possíveis perdas e o debate sobre estagnação
Como mencionei no início, outro ponto de discussão foi a ausência de qualquer novo restaurante com três estrelas, algo destacado por publicações como o El País ou o Gastroeconomy . Porém, na verdade, não foi propriamente algo que tenha escandalizado alguém, dado o receio de que pudesse haver algumas perdas neste campo depois do que aconteceu recentemente nos Estados Unidos, com restaurantes como o Alinea e o Masa a serem despromovidos desse estatuto. Sintomático nesse sentido foi ouvir Albert Adrià, numa entrevista dada à Cadena SER, admitir que, dentro do sector, havia receio de que um dos três estrelas pudesse perder distinção, algo que, na sua opinião, poderá acontecer num futuro próximo. Para Albert Adrià, muito feliz pela segunda estrela conquistada pelo seu Enigma em Barcelona, o facto de não ter surgido nenhum novo três estrelas deve ser lido como um sinal de possível estagnação no topo da pirâmide gastronómica espanhola. A propósito desta falta de renovação, é sempre interessante ler a análise de Carlos Maribona, no seu Salsa de Chiles (e, já agora, as suas visitas recentes ao Marlene e ao Fifty Seconds).
Andorra: presente na selecção, ausente da narrativa
Voltando ao Guia, a selecção Michelin Espanha 2026 reúne 1295 restaurantes, incluindo os sete restaurantes de Andorra, um deles com uma estrela. A Michelin informa que Andorra entrou este ano com uma nova incorporação na lista geral, embora não diga de que tipo. Porém, como sempre, este pequeno enclave dos Pirinéus passou invisível quer na gala quer na cobertura mediática espanhola. Bom, pelo menos não foi 100% ignorado – ao contrário dos Açores na versão lusa.
Os Prémios Especiais
Por fim, a noite também serviu para entregar os Prémios Especiais MICHELIN: Abel Valverde (Desde 1911, Madrid) recebeu o prémio de Serviço de Sala; Luis Baselga (Smoked Room, Madrid) venceu na Sommellerie; Juan Carlos García (Vandelvira, Baeza) foi distinguido como Jovem Chef; e, por último mas mais importante ainda, Quique Dacosta recebeu o prémio de Chef Mentor, reforçando o seu estatuto de figura maior da cozinha espanhola contemporânea.
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