Opinião

Guia Michelin 2025. Análise: vencedores, casos e casinhos 

A noite parecia prometer depois da subida ao palco de 43 novos restaurantes recomendados e apesar dos apenas 5 novos Bib Gourmand. A receita de chamar os “recomendados” era a mesma do ano passado, só que agora já não era novidade e era pouco credível que viesse aí uma chuva de estrelas. Porém, à medida que os novos restaurantes galardoados com uma estrela Michelin foram sendo chamados, como habitualmente por ordem alfabética, começava-se a perceber que afinal a colheita não ia ser nada má. Foram 8 no total, com alguns já esperados, outros que não geraram propriamente espanto e uma ou outra surpresa. Só isso já bastava para que esta edição entrasse para a história como aquela com o maior número de novos restaurantes estrelados de sempre em Portugal.

O problema veio logo a seguir, quando Marta Leite Castro, apresentadora desta edição – num registo mais sóbrio do que o tom professoral de Catarina Furtado no ano anterior – anunciou que todos os restaurantes com duas estrelas mantinham esse estatuto. Ou seja, deu logo a entender que a festa tinha acabado, que não haveria novos bi-estrelados e muito menos um ou “o” tão esperado três estrelas, que há anos se reivindica. Se a isto juntarmos a confirmação do zunzum que circulava na sala de que o 100 Maneiras teria perdido a estrela que ostentava, de repente aquilo que os responsáveis do guia vermelho esperavam que fosse visto e celebrado como uma noite histórica assentou no palco e na sala como uma neblina densa a pairar no ar. Isso acabou por ofuscar o feito histórico já mencionado, bem como outros aspetos notáveis, como a coroação de Vítor Matos como o chef com mais estrelas em Portugal e Marlene Vieira, do Marlene (Lisboa), bem como, em parte, também Rita Magro, do Blind (Porto), como as primeiras chefs mulheres da era moderna do guia – ou seja, desde que começaram a premiar os restaurantes de cozinha de autor – a ganhar tão almejada distinção.

Claro, esta é sempre a velha questão da gestão das expectativas. Como alguém disse um dia, “a expectativa é a mãe da merda” – a propósito, sobre este tema recomendo a leitura do óptimo artigo de opinião de Alexandra Prado Coelho, no Público.

Como acontece sempre neste tipo de eventos, há vencedores, perdedores, casos e casinhos. Como não gosto de ver o assunto de forma tão perentória, creio não ser necessário focar os perdedores. Acho mais interessante englobá-los em “casos e casinhos”.

Vencedores do Guia Michelin Portugal 2025

1.Vítor Matos
Foi de novo o grande vencedor da noite, tal como no ano passado, em que tinha conquistado duas estrelas para o Antiqvvm e uma para o 2Monkeys. Desta vez, o chef nortenho reforçou a dose ao juntar ao seu portfólio mais dois restaurantes com uma estrela, o Oculto, situado no hotel The Lince Santa Clara, em Vila do Conde, e o Blind, do Hotel Torel Palace, no Porto.

Parece que Vítor Matos tem uma fórmula e, tal como acontece em Espanha com Martín Berasategui, o guia parece gostar e confiar nela. Mérito lhe seja dado. Além de conseguir alcançar com rapidez os padrões de qualidade e consistência que a Michelin exige, é sempre de enaltecer a forma como Matos procura repartir os méritos com a equipa. Se é comum os nomes de topo agradecerem aos seus chefes executivos ou residentes, raramente alguém o faz num tom de paridade como ele o fez – neste caso, com Hugo Rocha, no Oculto, e Rita Magro, no Blind.

2. Marlene Vieira
O restaurante Marlene já nasceu com todos os requisitos e a pressão das estrelas, ou da estrela. Porém, como não são os críticos nem os chefs que decidem o timing do guia, esta demorou mais tempo do que o previsto. Se houve algo que não correspondeu aos critérios dos inspetores, só restou a Marlene Vieira refletir, arregaçar as mangas e tirar as dúvidas. Agora, ao ver finalmente reconhecido o seu trabalho, a chef portuense radicada em Lisboa traz finalmente uma mulher chef (enquanto autora, líder principal e proprietária) – após uma ausência de muitos anos – para o universo das estrelas Michelin. Se juntarmos a isto o facto de o seu marido, João Sá, ter renovado a sua estrela no Sála, é bem provável que se tenham tornado o primeiro casal com uma estrela cada um no seu restaurante.

3. Os inspetores pela descoberta e reconhecimento de novos talentos
Por vezes criticamos os inspetores pela previsibilidade das suas escolhas, mas este ano conseguiram surpreender. Se restaurantes como o Marlene, o Vinha ou o Arkhe já há algum tempo eram apontados à estrela, se espaços com a assinatura de Vítor Matos são, pelos vistos, quase sempre candidatos, ou se lugares como o Grenache já estavam no radar, o Palatial e o Yoso foram uma surpresa. Por acaso, até tinha chutado este último como candidato à estrela num testemunho para a Alexandra Prado Coelho, no Público, mas não estava verdadeiramente convicto nesse prognóstico. Já o Palatial, restaurante bracarense liderado pelo chef Rui Filipe, foi uma total surpresa – e não só para mim.

4. Lisboa indy
Dos oito novos galardoados com uma estrela, quatro são em Lisboa, nenhum está diretamente ligado a um hotel, a um grupo ou a Vítor Matos 🙂 .

5. Madeira
A Madeira há muito que é um destino turístico fortíssimo e a restauração de qualidade, sobretudo na última década, começou a merecer maior atenção do guia. Apesar de este ano não ter havido novos restaurantes distinguidos com estrelas, todos mantiveram as as estrelas e houve cinco novos a entrarem para o guia como “recomendados”. Não tem nada a ver mas… temos aqui um sinal de que a próxima gala será no Funchal?

Casos e Casinhos… 

Já aqui falei da perda de estrelas do 100 Maneiras e é óbvio que, tendo em conta o perfil mediático e de personalidade pública de Ljubomir Stanisic, era previsível que essa perda provocasse estrondo. Ouvi alguém do guia referir que foram dadas explicações ao próprio, mas nada de concreto soou cá para fora. Também não creio que essa perda possa ter algo a ver com a sua tirada no programa Alta Definição da SIC, onde afirmou que “a estrela é um dodot para limpar o cu. Dá estatuto, é útil, mas agora só serve para pagar contas”. Quero dizer, também não acredito em bruxas mas…

Nos últimos dias, nunca vi um caso mais estranho do que a reação (ou não reação) à conquista da estrela por parte dos responsáveis do Arkhe (Lisboa), Alejandro Chávarro ou João Ricardo Alves. Num passado não muito distante já os vi reagir de forma mais ou menos exuberante com distinções menos importantes – sobretudo o primeiro, uma vez que o João Ricardo sempre foi mais discreto. A ausência da gala, justificada por um “estávamos a trabalhar”, e sobretudo o silêncio, ou reações vagas, do tipo “ficamos contentes que os nossos clientes estejam contentes” reavivou uma série de especulações que já vinham de trás em que se falava de problemas com a equipa e de dificuldades económica e financeiras, como próprio admitiu em declarações a Cláudia Lima Carvalho, da Time Out, que deu origem a um oportuno artigo publicado logo no dia seguinte à gala.

O Arkhe, que acompanhei muito de perto nos primeiros anos e que para mim é um dos restaurantes mais interessantes de Lisboa – a vários níveis: de cozinha, vinhos e serviço -, fez um upgrade qualitativo, que se revelou sobretudo quando mudaram para o Rato, com reflexo natural no preço, o que poderá ter afastado a clientela dos almoços, por exemplo. Achava-se que o objetivo era a estrela, mas pelos vistos, não. Nos últimos dias, nas redes sociais, não há uma única alusão à estrela, apenas ao aniversário do restaurante e à união entre a equipa (a que se juntou, recentemente na cozinha o Chef “André “Attla” Fernandes). Acho que nem  Marc Veyrat responderia com tamanha indiferença. (Na verdade, Marc Veyrat, nunca responderia com esta indiferença).

Nuno Mendes Já teve estrelas Michelin mais do que uma vez em Londres, em ambas as vezes com restaurantes com uma proposta não propriamente dentro da caixa. Nuno Mendes é o chef principal de dois restaurantes: o Cozinha das Flores, no Porto e Santa Joana, em Lisboa. O segundo é novo de mais, mas o primeiro tem sido apontado como um dos restaurantes mais interessantes do momento. Não seria razão mais do que suficiente para constar no guia com uma “recomendação”. E o Stramuntana, é demasiado regional? os inspectores não conseguem traduzir de mirandês para espanhol? E os Açores, continuam a não ser Portugal? a este respeito só gostaria de saber se consideram que não há nenhum restaurante com qualidade suficiente para constar no guia ou se é longe e por isso ainda não tiveram oportunidade de lá ir.

Nos últimos anos o Guia Michelin tem feito uma aposta na atribuição de estrelas verdes a restaurantes comprometidos com o tema da sustentabilidade. Os critérios são vagos e, segundo consta, avaliados pelos mesmos inspectores, que terão recebido formação nesse sentido. Em Portugal só encontraram até ao momento 6 restaurantes para atribuir o galardão, sendo que apenas houve uma nova entrada este ano, a do Encanto, em Lisboa. Com um pouco mais de empenho, talvez encontrem mais alguns, tipo o SEM ou o A Cozinha por António Loureiro, só para falar de lugares que se encontram no guia, por exemplo.   

Também não passou despercebida a ausência física do director geral do guia, o hiper óptimista e ampliador de expectativas, Gwendal Poullennec. É verdade que enviou uma mensagem video, mas – a menos que tenha tido algum constrangimento de saúde ou familiar – faria o mesmo se fosse em Espanha, ou França, por exemplo? 

Voltando ao inicio: oito novas estrelas Michelin é uma óptima noticia que acabou por ser diminuída por não ter havido nem novos duas, nem a tão desejada terceira para um dos clássicos candidatos. Neste momento a base do “ T ” invertido está cada vez mais alargada, o que é bom. Porém, fica aquele ligeiro amargo de boca que se podia ter ido mais além. 

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1 comment on “Guia Michelin 2025. Análise: vencedores, casos e casinhos 

  1. João R Sousa's avatar
    João R Sousa

    Quanto ao ponto 4., sempre é uma percentagem menor do que a habitual nos prémios do mesa marcada…

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