Menu de Interrogação

Michele Marques: “Tenho as mesmas vantagens e desvantagens de um restaurante numa grande cidade”

Ela não hesita quando se pergunta porque é que se começou a interessar por cozinha – “Não gostava de lavar loiça”. Muito nova, em Petrópolis, cidade do estado do Rio de Janeiro onde nasceu, com os pais a trabalhar fora de casa durante o dia, era Michele Marques quem preparava o almoço, deixando as outras tarefas para as duas irmãs. Mesmo assim, a actual chefe do restaurante Mercearia Gadanha, em Estremoz, não escolheu logo a cozinha como profissão nem tinha na família ninguém ligado ao sector. Primeiro, começou o curso de Comunicação Social ainda em Petrópolis, mas depois, aos 21 anos, decidiu mudar de vida e rumou a Lisboa em 2005. No entanto, como uma amiga trabalhava numa empresa de eventos em Estremoz e precisava de ajuda, acabaria por se mudar para a cidade alentejana.

A entrada no mundo da cozinha também se daria de forma diferente da habitual. “Visitava feiras de Norte a Sul do país, vendendo produtos alentejanos de qualidade, mas verifiquei que em Estremoz não havia locais que o fizessem”, explica Michele Marques. Vendo essa oportunidade, decidiu, em 2009, juntamente com um sócio, Mário Vieira, abrir a Mercearia Gadanha. A partir daí, com os clientes a dizer que gostariam de provar pratos com os produtos ali à venda, veio a ideia de também abrir um restaurante. Mas, sentindo que precisava de formação em cozinha, estagiou no hotel Altis, em Lisboa, então chefiado por José Cordeiro, com João Rodrigues ainda como subchefe, e depois cursou a Escola de Hotelaria de Portalegre entre 2010 e 2012.

O restaurante Mercearia Gadanha abriria finalmente em 2013, celebrou a primeira década em Fevereiro, num registo que obteve grande êxito. “Respeito a cozinha tradicional e procuro utilizar os produtos locais, mas é claro que os meus pratos têm a minha marca, não podia ser de outra forma”, salienta. Casada com o também cozinheiro Ruben Trindade, com dois filhos, abriram ainda um hotel, a Casa do Gadanha, no centro de Estremoz, que possui um restaurante de registo mais contemporâneo. É esta a entrevistada que marca o regresso do Menu de Interrogação, a rubrica que, como sempre, tem o patrocínio da cerveja Estrella Damm, no âmbito do seu apoio à gastronomia.

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Como é que uma brasileira chega ao Alentejo e abre um restaurante que em pouco tempo se tornou uma referência? 

Chego a Portugal em 2005, pouco tempo depois em Estremoz. Começo com uma pequena mercearia, aberta em 2009, e, depois de terminar a formação em gestão e produção de cozinha, abro meu próprio restaurante, e os dois passam a ser um único projecto: a Mercearia Gadanha.

Não acho que seja assim tão pouco tempo, o restaurante acabou de fazer 10 anos no passado fevereiro. Acho que o facto de estar no interior, de ser mulher e de na altura que abrimos, ser algo diferente, chamou atenção de algumas pessoas. As que vieram e gostaram, espalharam a palavra e assim é até hoje.

O facto de recebermos alguns destaques, como o “paraíso rural” pela Monocle em 2005 trouxe muitos estrangeiros e estes, por sua vez, trouxeram outros. Alguns até criaram cá raízes porque também se apaixonaram pela cidade e pelo descanso que é estar no interior. Isso também atraiu outros jornalistas e com isso o passa-palavra foi ficando cada vez mais forte.

A Mercearia Gadanha, no centro de Estremoz, acaba de celebrar 10 anos de existência

Durante a pandemia enquanto os restaurantes dos grandes centros definhavam, no interior, lugares como a Mercearia Gadanha não tiveram mãos a medir. Como foram esses tempos, foi a “vingança” do campo face à grande cidade? 

 Não foi tão fácil como isso. Tive que arregaçar as mangas e entrar na onda do take-away e, mesmo com lágrimas nos olhos de ver o restaurante vazio, agarrar em toda vontade de quem adora o que faz e empenhar-me em entregar uma refeição tão boa quanto a que servimos no restaurante. A escolha dos pratos também foi cuidada a este ponto, há coisas que não se consegue comer no take-away.

Quando Estremoz já não tinha resposta, arregaçamos as mangas outra vez e fomos fazer entregas em cidades vizinhas. De braços cruzados é que não dava para estar. 

Acho que parte do sucesso desta altura deveu-se também a muitos dos nossos clientes que têm montes e quintas por aqui, refugiaram-se em Estremoz e não queriam estar sempre a cozinhar para a casa cheia. Tive clientes de todo lado, mas foi um período duro, onde o objetivo era ter as contas em ordem e manter todo staff. Conseguimos! 

Os pratos do restaurante têm conquistado clientes portugueses e estrangeiros

Quais são as vantagens e desvantagens de ter um restaurante numa pequena cidade do interior como Estremoz, tida por muitos como um lugar encantador?

Eu acho que tenho as mesmas vantagens e desvantagens de um restaurante numa grande cidade. Acho que as dificuldades devem ser as mesmas. 

Dificuldade em recrutar, impostos cada vez mais impossíveis de suportar, pouco tempo livre para estar com a família… enfim, na hotelaria acho que quase todos sofremos do mesmo mal. O melhor de estar numa cidade pequena, para além de ter um relacionamento mais próximo com a comunidade, produtores e clientes, é mesmo não perder tempo em deslocações e esse tempo é precioso para estar com a família. 

Como está a correr o vosso projecto mais recente, a Casa do Gadanha? Sente que os desafios do Ruben Trindade (companheiro/marido e chefe de cozinha), que optou por uma cozinha contemporânea num lugar muito enraizado na cozinha regional, são semelhantes aos que a Michele teve no inicio da Mercearia Gadanha? 

A Casa do Gadanha é como todo projecto que se abre “na cara e na coragem”, tem sido um grande desafio para mim. Aprender com os erros, ouvir muito o feedback dos clientes e ir melhorando o que ainda não está ao nível que queremos. Mas é uma caminhada longa, temos que dar um passo de cada vez.

É impossível ficar indiferente ao trabalho que tem sido feito lá. Admiro o trabalho que o Ruben tem feito em conjunto com a Francisca [Francisca Dias, que ficou conhecida por ter sido a vencedora da primeira edição portuguesa do programa televisivo “Hell’s Kitchen – A Cozinha é um Inferno”] e toda equipa. Embora veja e sinta todas as dificuldades e alegrias de querer fazer algo diferente numa cidade tão pequena, acredito que a mentalidade está a mudar. Com a mercearia há 10 anos atrás, só ouvia comentários do gênero “é muito gourmet“, “vamos lá passar fome”, etc e etc.. isso de gente que nunca lá pôs os pés. Mas é o que eu digo, com trabalho, consistência e paciência, tudo se consegue. O espaço da Mercearia está conquistado e bem vincado, a Casa do Gadanha está a conquistar o seu espaço e construindo um bonito percurso. Eu costumo ser muito otimista, vejo a Casa do Gadanha com um futuro cheio de sucesso.  

Mesmo quando baseadas em produtos locais, as receitas têm a “marca” da chefe brasileira

Qual a importância dos turistas, nacionais e estrangeiros, para a viabilidade do seu restaurante?

Todos os clientes são importantes. Todos os clientes são bem-vindos. O ideal era ter o melhor dos dois mundos, que é o que já acontece na Mercearia e espero que em breve também aconteça na Casa do Gadanha. Neste momento, diria que na Mercearia é 50%/50%, mas na Casa da Gadanha os turistas representam um pouco mais.

Considera que facto de ser mãe de dois filhos coloca limites à sua carreira?

Seria incorreto dizer que não. Ter filhos tem muita influência. Mas não acho que esteja só do meu lado enquanto mãe. Eu posso dizer que eu e o Ruben dividimos as tarefas de maneira igual e tentamos nos apoiar para que, dentro deste dia a dia tão corrido, consigamos ter nossos momentos em família e equilibrar as coisas com a exigência da profissão.

Todo tempo que tenho livre é para tentar estar mais tempo com eles. Isso significa recusar convites, participar menos em eventos… por isso sim, coloco limites na minha carreira e já aprendi a viver melhor com isso. 

Consegue o que precisa junto dos fornecedores locais ou há muita coisa que falta?

Conseguimos comprar muitas coisas localmente, mais do que há 10 anos atrás e acho que conseguiremos cada vez mais, mas é um percurso. Leva tempo. 

Quais os seus objectivos profissionais a médio/longo prazo?

Meu objetivo é conseguir ter mais tempo livre para estar com meus filhos e com a minha família. Essa constante pressão de que o tempo voa e que passamos o tempo no trabalho é algo que quero mudar em mim. 

A equipa da Mercearia Gadanha com Michele Marques ao centro

Consegue ter tempo para desenvolver outras actividades e interesses ou o restaurante e a família tomam-lhe todo o tempo?

Eu trabalho desde os 14 anos, nunca parei. Sempre fui habituada a trabalhar fins de semana. Infelizmente, a gente se acostuma com esse ritmo e, com o tempo, fui desvalorizando ter fins de semana em casa. 

Meus filhos ainda não estão na escola dos crescidos, isso significa que vão faltando aulas para estarem connosco nas folgas, mas isso em breve vai acabar e vamos ter que nos esforçar para encontrar forma de estar com eles do mesmo jeito que as famílias “normais” estão. Hoje em dia, tenho me forçado mais a arranjar este tempo e, por mais que as vezes custe, aprender a dizer não e a colocar a prioridade no lugar certo. 

E a pergunta da praxe: qual seria a sua última refeição se soubesse que o mundo acabaria amanhã?

Tomara que não acabe, eu gosto de comer tanta coisa! Mas seria o arroz com feijão da minha mãe e, se não fosse pedir muito, um bocadinho de farofa de alho do meu pai. 

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